Transmissão

Gargalos de transmissão no Nordeste limitam escoamento eólico

Atualizado em 10/06/2026

Ilustração sobre linhas de transmissão e gargalos de rede

O Nordeste brasileiro concentra a maior fatia da capacidade eólica instalada no país — ventos consistentes, factor de capacidade elevado e leilões sucessivos que instalaram parques em Rio Grande do Norte, Bahia, Piauí e Ceará. Em teoria, isso deveria significar energia barata e abundante para todo o Sistema Interligado Nacional (SIN). Na prática, parte relevante dessa geração é "cortada" ou despachada com restrição porque as linhas de transmissão não escoam tudo o que os parques produzem nos meses de vento forte.

O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) publica semanalmente relatórios de restrição por congestão. Nos primeiros cinco meses de 2026, horas com limitação de escoamento eólico no eixo Nordeste–Sudeste superaram médias dos dois anos anteriores, segundo compilação feita pela redação a partir de dados abertos do operador. Não é apagão — é energia que existe e não chega, ou chega por caminhos mais caros.

Leilões e obras em atraso

O planejamento de transmissão no Brasil segue ciclos de leilões conduzidos pela ANEEL, com obras executadas por vencedores que recebem receita fixa (RAP) por disponibilidade. Atrasos em licenciamento ambiental, desapropriação de faixas de servidão e conflitos com comunidades locais são causas recorrentes de cronogramas estourados.

Linhas estratégicas previstas para entrar em operação entre 2024 e 2025 ainda aparecem, em junho de 2026, com obras parcialmente concluídas nos relatórios de acompanhamento da Empresa de Pesquisa Energética (EPE). Cada mês de atraso mantém gargalos que o planejamento de expansão prometia eliminar.

Custo para o consumidor

Quando o Nordeste gera mais do que consegue exportar, duas coisas podem ocorrer: curtailment (redução do despacho eólico) ou fluxos alternativos por rotas mais longas, com perdas maiores. Em ambos os casos, o equilíbrio do mercado de curto prazo no Módulo Nordeste pode registrar preços baixos ou até negativos em horários de superoferta — enquanto o Sudeste, consumidor líquido, paga componentes mais altos.

Para indústrias no mercado livre com contratos indexados à PLD (Preço de Liquidação das Diferenças), a volatilidade regional é palpável. Já o consumidor cativo sente o efeito de forma difusa, via encargos e bandeiras, embora a relação direta seja menos visível na fatura — o que não significa que seja irrelevante.

"Transmissão é o elo que transforma vento barato em luz acessível em São Paulo. Sem ele, ficamos com dois mercados elétricos desconectados dentro do mesmo país", resume economista do setor ouvida em seminário da EPE em Brasília.

Renováveis vs. infraestrutura

O debate político frequentemente opõe "mais renováveis" a "mais transmissão", como se fossem substitutos. Tecnicamente, são complementares: cada megawatt de eólica instalado sem correspondente expansão de escoamento aumenta a probabilidade de restrição. O Plano Decenal de Expansão de Energia (PDEE) tenta sincronizar os dois vetores, mas o horizonte de uma linha de 500 kV pode ultrapassar oito anos da concepção à energização — enquanto um parque eólico pode ser instalado em 18 meses.

A geração distribuída no Sudeste alivia parcialmente a demanda local, mas não substitui interligação regional: telhados solares em Campinas não escoam vento do litoral potiguar.

Licenciamento e diálogo local

Projetos de linha de transmissão atravessam dezenas de municípios e áreas de preservação. Consultas prévias, compensações ambientais e negociação com proprietários rurais fazem parte do processo — e explicam parte legítima dos atrasos. A redação registra, porém, casos em que a falta de coordenação entre órgãos ambientais estaduais e federais multiplicou prazos além do previsto no edital de leilão.

Iniciativas recentes de "sala de situação" para obras críticas, reunindo ANEEL, EPE, ONS e empreendedores, buscam destravar gargalos burocráticos. Resultados concretos ainda são mistos: algumas obras ganharam ritmo; outras seguem em impasse judicial.

Perspectiva para 2027

Para o segundo semestre de 2026 e 2027, o ONS projeta melhora gradual conforme trechos específicos entrem em comissionamento — mas nenhuma solução única elimina todos os pontos de congestão. A redação mantém acompanhamento mensal dos boletins de restrição e das datas de energização publicadas no portal da ANEEL.

Quem acompanha o setor elétrico brasileiro precisa entender transmissão tanto quanto tarifa de distribuição ou bandeira. Energia limpa e barata no papel não se converte automaticamente em conta menor: ela precisa de estrada para chegar. No Nordeste de 2026, essa estrada ainda está incompleta — e o custo aparece, mesmo quando não aparece linha por linha na fatura.